A tumba da hipocrisia

Dois de novembro! As pessoas vestem as máscaras e mantos da compulsão e, compungidos, lá se vão, passos de pantufas pelos lajedos dos cemitérios, no rosto o ar indefinível de mistério e infinitude, a buscar um ar adequado a fazer ponte para a realidade infinita da morte.
Os corpos que lá habitam, são moradores provisórios, ainda que tenham comprado o terreno. Chegará o dia em que as pressões imobiliárias, o Plano Diretor, a conveniência política ou outros fatores (o mais das vezes, vários deles juntos) mandarão para os ossários (para os mais sofisticados, ossuários) do esquecimento aqueles distintos corpos, tão iguais em sua putrefação.
Temos cemitérios multisseculares, onde os ossos repousam (alguns se solidificam, empedram) ossos de celebridades do mundo e que estão à salvo da sanha buliçosa do desenvolvimento (quase escrevo “desenvilvimento”), mas também esses serão revirados algum dia pelos terremotos, tsunamis, afogados pelas marés gigantes, pulverizados pelas bombas, atômicas ou não.
Não sou de visitar cemitérios, porque nunca imaginei que o corpo e a pessoa fossem a mesma e única coisa, muito pelo contrário: sempre cri que o corpo é uma ferramenta pela qual a pessoa se expressa, age, responde aos estímulos do mundo. Isso me fez perceber que as necessidades da pessoa e as necessidades do corpo se dão em patamares diversos, o que me levou a respeitar as pessoas pelos atos que praticam para satisfazer as necessidades do corpo. Contudo, isso já é filosofia e nosso assunto por aqui são os corpos e sua mortalidade. Voltemos, pois ao veio principal.
Voltando, portanto, ao passo de pantufas compungidas pelos lajedos dos cemitérios, há que se considerar a transitoriedade de tais corpos e do registro das personalidades que os utilizaram como ferramenta no mundo. Todo esse diritambo, por definição trágico, se fez tão somente para anunciar essa frase: “seremos esquecidos algum dia”. Espero que isso não cause qualquer estrago grave na psicoplastia do leitor. E é a verdade que, mais cedo ou mais tarde, teremos de encarar. A lembrança de nós não resiste, muitas vezes nem ao período em que os tecidos moles do corpo resistem à decomposição: somos esquecidos no dia seguinte ao que nos demos a conhecer. Às vezes, demora mais, uma semana, um mês, um ano. Memória de amores perdidos costuma durar mais, em forma de ferida ácida que nos corrói como se fôramos túmulos a encerrar defunto. Alguns entre nós têm a memória de si preservada por séculos e mesmo muitos milênios. Mas esses são especiais.
Chegamos ao fim dessa locução e quero chamar sua atenção para o fato de que o que resta de nós, mesmo, não é o corpo, nem o corpo ausente (como o de Jesus), mas os atos da pessoa. Passados muitos séculos ou milênios, que é do corpo de Sócrates? Quem se importa? Ou, do outro lado, de Gengis Khan? E, de novo, quem se importa? Importam, sim, os atos. Por isso, nesse dois de novembro quero conclamar você a homenagear a memória dos seus amados ou dos odiados. Festeje. Aos amados, festeje pela beleza que tenham trazido à vida e ao mundo; aos odiados (nunca recomendável, mas real), pela partida deles e decorrente exclusão dos tais em sua própria vida, um espinho a menos na sua garganta. Guarde as pantufas solenes e se revista da alegria pelos amados. Mais: homenageie os que ainda estão por aqui de corpo (e alma) presente. Festeje a vida, a beleza, o amor, as pessoas. É assim que se constrói um mausoléu à hipocrisia. Bom feriado.

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Sobre casagrande

Sou leitor. E escrevo.
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