Emoções e outras premissas

Vinte e cinco de novembro. A cidade acorda sob emoções contrastantes. Já se veem anúncios da black Friday a meter nas telas de TV uma alegria , uma natimorta compulsão ao consumo. Minha cidade acorda. Longe, muito longe da cidade, um senador foi preso e o Senado vota a continuidade ou não da prisão. E votam os senhores senadores, num raríssimo ato de rubor político, pela continuidade da prisão do conivente com o roubo. Roubo de cidadania, de governança, de dignidade do povo brasileiro.

E nossa cidade reage. Não com a ufania pela justiça enfim se modelando (ainda que seja um modelar de espumas ao vento), mas pela mágoa de ver o nosso senador, o representante do Estado naquele Senado, a votar pela (impossível!) inocência do conivente. Mais que a cidade, a notícia é a mim que abafa, desarma, destrói, corrói como ácido. Pois o senador representante do Estado naquele cenário é o companheiro de ainda ontem, que par e passo caminhava pelas ruas de nossa cidade, bandeiras ao vento, cantigas, palavras de ordem contra a oligarquia vigente e enclausurante.

A notícia do evento abafou a cidade. Black Wednesday, black Friday, black times. Pelas avenidas limpas, amplas, bonitas e cuidadas trafegava solto o sentimento do cinza chumbo. Papais noéis a nos convidar para a festa, para a praia; mamães noéis a arregalar os olhos da moçada e fazer estrebuchar a hipocrisia deletéria das beatas não foram suficientes para colorir o dia. Por mais que nos alegrasse a prisão do conivente com o roubo, a decepção da (in)conveniência política nos exauria.

Passou a black Wednesday como passa a lama venenosa que desce de Mariana, a fazer ácido o rio doce. Não de repente, mas vagarosamente, fazendo círculo vicioso nas rotatórias, sem ver saída, rodando, rodando, rodando. Tantas voltas em nossa cabeça, do mesmo infame pensamento: “como pode o companheiro…?” Passou a quinta na mesma blacktude e a alegria forçada do consumo se desenha a traços fortes nos anúncios black Friday, black Friday, black Friday!

A cidade se verga ao peso do mormaço ao sol de um amarelo sujo, maculado, corrompido que a alegria forjada dos anúncios não consegue quebrar. Chegou, enfim, a black Friday. Tudo muito black, apagado, tudo muito enganoso e enganado, cumprindo o rito do black times.

Saio a respirar a cidade, mas o ar me atormenta: queima meus pulmões numa agressão química que me corrói desde a garganta. Busco a pureza do Cesamar e papais noéis estão de prancha em punho sugerindo um Natal baseado no tropical, uma promessa de travessuras no lago; mamães noéis, livres da hipocrisia das beatas, mostram suas plásticas realçadas em tintas fortes. Penso no Cesamar, o homem. O coração manda uma mensagem de carinho e amizade. Era nosso adversário nas lides políticas, mas apenas aí era adversário.

Caminho como autômato pela pista de corrida, rodando o circuito do parque, alimentando os olhos de verde vivo, botando nas orelhas uns brincos de canto de pássaros e vou levando, angustiado, o que resta deste malfadado, corrupto e sujo ano, no black fast do petróleo bras, bras, bras, na lama turva de Mariana, na podridão da República, na sujeira grossa do IGEPREV que faz altiva e ativa nossa Palmas em tão black times.

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Sobre casagrande

Sou leitor. E escrevo.
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3 respostas para Emoções e outras premissas

  1. Lilian disse:

    Adorei, Casagrande!!! Você me fez extravasar em suas palavras um pouco de minha indignação.

  2. Lilian disse:

    Leitura maravilhosa! Parabéns ao talentoso e amigo escritor.

  3. obrigada, poeta! um beijo enorme!!!!!!!!!

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