O papel das entidades frente aos desafios linguísticos atuais*

Língua é, em síntese, a expressão do perfil cultural de um dado grupamento humano. Ocorre que dados os aspectos tecnológicos, políticos, econômicos e ideológicos de nossa realidade de modernidade líquida, na qual a identidade cultural já está passando da condição de líquida para a condição de vapor, a língua, como síntese dessa identidade cultural segue a mesma sistemática de vaporização. O que estou a dizer pode parecer um dialeto aloprado, resultado da combinação de um punhado de elementos do caos. Mas, absolutamente, não o é.

Enquanto modernidade líquida, o ritmo da mudança conceitual (e os conceitos e definições são os elementos primevos dos átomos constituintes de nosso todo ou nosso corpo cultural) obedecia a um fluxo hegemônico de informações, num ritmo e numa qualidade conteudística ditados pela matriz ou por ela ressignificado, a perfazer um “rio” cultural e, portanto, de afirmação linguística. A percepção de tal fluxo como “líquido” deve-se à sua condição de “escorrer”, de inconsistência, de impermanência em um dado ritmo. Nossa realidade neste momento já é completamente outra.

A disseminação dos canais e possibilidades de comunicação sem que a mesma passe pelo crivo da matriz, manifestam-se como gêiseres, que explodem com relativa força e disseminam como vapor, competindo com o fluxo controlado da modernidade líquida. Quanto mais fácil e mais amplo o acesso à tecnologia da informação integrada à comunicação, tanto mais se multiplicam esses gêiseres por todo o mundo.

Nesse contexto, temos uma realidade em que chiclete eu misturo com banana e assovio um tango argentino enquanto danço um blues, com uma parceira de mangá, e pós festa, caçamos juntos os Pokémons ou deslindamos as múltiplas personalidades das matrioskas, que encarnamos, enquanto planejamos, nossa existência de walking deads depois de navegar no ventre da baleia azul. E todas essas pressões psicossociais nós as sofremos presos numa bolha, cuja pressão aumenta sempre que explode um gêiser cultural, seja do Estado Islâmico, seja dos skinheads, de um Aiatolá, do Papa, do Trump ou da sociedade de caçadores de ETs.

Recebemos milhões de dados a cada dia. Esses dados é que formatam nosso perfil e nosso conteúdo cultural. Por decorrência formatam, deformatam e reformatam nossa língua que, em síntese, é a expressão de nosso perfil cultural. E, se nosso perfil cultural é mundial, nossa língua deve acompanhar esse perfil: ser mundial. Mas nunca oriunda de uma matriz, como ocorreu em nosso processo civilizatório, com domínio do grego, do latim, do espanhol, do francês e, por fim, do inglês. O modo de vencer tal desafio passa, obrigatoriamente, pela evolução de linguagens lógicas capazes de expressar todo o conteúdo cultural de todos os produtores de cultura. Já tivemos experiências desse tipo, onde a que mais se destaca é a língua Universal Esperanto, também conhecida como a língua da fraternidade, a qual não se expandiu justamente pelo perfil cultural dominante no universo capitalista, antítese da fraternidade apregoada pelo Esperanto. Esse, o desafio: vencer nossas limitações culturais; sermos universais.

 

  • *Participação em mesa redonda com o tema-título.
  • Instituto Federal do Tocantins, Campus Paraíso.
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Espanto, assombro, lucinação

Partiu, no domingo, o dia de Apolo, da beleza e da luz, o poeta do espanto, do assombro, da lucinação. Sim, o poeta como filósofo, para quem a próxima faceta do pensar se mostra feito bomba, luminífera, a explodir as consolidadas (in)verdades. Luz, luz em todos os instantes, em toda a existência a transformar o cotidiano bizarro, bruto, rude, em constante alucinação/lucinação, a clarear outras realidades, tantas vezes mais reais que a parca tridimensionalidade, tão inverídica, tão ilusória.
Olhando do ângulo interno, da lucinação em que vivia, Ferreira Gullar não morreu: nasceu para a luz que o buscou e espantou e o assombrou por tanto tempo, e que ele traduziu na poética do verso, da prosa, do discurso. Desde o quatro de dezembro de 2016 Ferreira Gullar vive, em toda sua feérica magnitude, o espanto supremo de saber-se luz. Travestido do espanto, descobriu-se, ele próprio, o lúcifer redivivo a traduzir luz para o reino das sombras que habitamos.
Não foi nunca gratuito o espanto que produziu aos nossos olhos empedrados, ainda que diamantíferos, com sua produção intelectual. Foi sempre a explosão do próprio assombro diante da revelação, o espanto próprio do que se pensa finito e limitado ao vislumbrar o infinito caleidoscópio da vida.
“Quero entrar no mar e ir embora” disse o poeta nos momentos finais. Queria entrar no infinito de horizonte e de profundidade, de tons e semitons cambiantes como a vida e seus parâmetros de tradução. Para seu espanto e assombro, conseguiu: entrou num mar de luz e se foi embora. Apolo o recebeu, radioso, no domingo. Viva Ferreira Gullar!

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Donald

Nervosinho, trapalhão, se achando o rei da cocada preta e mais esperto que todos, sempre pronto a levar vantagem, ainda que de modo não convencional. Eis aí o pato Donald.
Mas o Donald na foto em destaque é o topetudo Trump. Deu Trump na cabeça, contrariando todos os prognósticos, e o efeito colateral se dará nos bolsos, nos estômagos, na insegurança geral.
Observo as análises do efeito “homem mais poderoso do mundo” (mais uma estupidez nos conceitos capitalistas) e tais análises abrangem as mais diferentes áreas: da bomba que éa eleição de Trump no setor social, na economia global, na situação política (principalmente quanto ao México). Mas há um efeito além do fator Trump que não está sendo cogitado, e que observo como efeito macro no sentido histórico.
No desenvolvimento histórico observamos que o poder, inicialmente enfeixado por divinas mãos (e mentes), era exercido pelos escolhidos das divindades (os reis e imperadores na história antiga eram divinos), conceito que vigeu em simbiose até que se deu a separação dos “gêmeos siameses” Estado e Igreja. Em primeiro momento, os reis continuaram a ser a representação do divino, mas tal representação precisava do aval da Igreja, traduzindo a simbiose para outra dimensão. No segundo momento, o Estado separou-se da Igreja, flertando com a nova força de domínio, o Capital.
A nova personagem chegou humilde mas ágil, solapando o poder da Igreja (a começar com o conceito de lucro como pecado, pois por conta do capital a Igreja de Roma criou o conceito de “purgatório”, semi-inferno onde os ricos purgariam seus pecados antes de ir para o céu) e também do Estado, impondo cada vez mais profundamente seus próprios conceitos, a ponto de substituir conceitos da época como “família”, “nobreza”, “sangue” ou “honra” pela simplicidade de escarnio: “todo homem tem seu preço”, frase epistolar no catecismo dos negócios. Claro é que essa mudança se deu de modo paulatino, ao longo de séculos.
Chegamos ao século XXI com o domínio quase completo pelos conceitos e padrões capitalistas, com a Igreja em franca derrocada e o Estado completamente minado (o planeta, por decorrência, com falência múltipla de órgãos decretada pela ciência ecológica). Pois o fenômeno Trump é apenas o golpe de misericórdia na simbiose Estado-Capital. Com Trump o Capital tomou o Estado! E promete tomar o planeta (ou o que resta dele), em definitivo e com claras intenções de acabar o serviço de extrair as últimas forças dos órgãos que ainda apresentam qualquer traço de vitalidade.
Os idealistas, os que apostam no social e na sociedade entrarão para a história tão somente como um verbete. E, o pior, estará nos livros que apenas os fortes no capital poderão comprar. Natureza e recursos naturais em geral? Só têm valor à medida em que puderem ser transformados em capital. Seres humanos? A avaliação de cada um depende do lucro que possa proporcionar.
Deu Donald na cabeça e brilha o profeta Dante Alighieri na visão histórica do Inferno nessa divina comédia.

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A tumba da hipocrisia

Dois de novembro! As pessoas vestem as máscaras e mantos da compulsão e, compungidos, lá se vão, passos de pantufas pelos lajedos dos cemitérios, no rosto o ar indefinível de mistério e infinitude, a buscar um ar adequado a fazer ponte para a realidade infinita da morte.
Os corpos que lá habitam, são moradores provisórios, ainda que tenham comprado o terreno. Chegará o dia em que as pressões imobiliárias, o Plano Diretor, a conveniência política ou outros fatores (o mais das vezes, vários deles juntos) mandarão para os ossários (para os mais sofisticados, ossuários) do esquecimento aqueles distintos corpos, tão iguais em sua putrefação.
Temos cemitérios multisseculares, onde os ossos repousam (alguns se solidificam, empedram) ossos de celebridades do mundo e que estão à salvo da sanha buliçosa do desenvolvimento (quase escrevo “desenvilvimento”), mas também esses serão revirados algum dia pelos terremotos, tsunamis, afogados pelas marés gigantes, pulverizados pelas bombas, atômicas ou não.
Não sou de visitar cemitérios, porque nunca imaginei que o corpo e a pessoa fossem a mesma e única coisa, muito pelo contrário: sempre cri que o corpo é uma ferramenta pela qual a pessoa se expressa, age, responde aos estímulos do mundo. Isso me fez perceber que as necessidades da pessoa e as necessidades do corpo se dão em patamares diversos, o que me levou a respeitar as pessoas pelos atos que praticam para satisfazer as necessidades do corpo. Contudo, isso já é filosofia e nosso assunto por aqui são os corpos e sua mortalidade. Voltemos, pois ao veio principal.
Voltando, portanto, ao passo de pantufas compungidas pelos lajedos dos cemitérios, há que se considerar a transitoriedade de tais corpos e do registro das personalidades que os utilizaram como ferramenta no mundo. Todo esse diritambo, por definição trágico, se fez tão somente para anunciar essa frase: “seremos esquecidos algum dia”. Espero que isso não cause qualquer estrago grave na psicoplastia do leitor. E é a verdade que, mais cedo ou mais tarde, teremos de encarar. A lembrança de nós não resiste, muitas vezes nem ao período em que os tecidos moles do corpo resistem à decomposição: somos esquecidos no dia seguinte ao que nos demos a conhecer. Às vezes, demora mais, uma semana, um mês, um ano. Memória de amores perdidos costuma durar mais, em forma de ferida ácida que nos corrói como se fôramos túmulos a encerrar defunto. Alguns entre nós têm a memória de si preservada por séculos e mesmo muitos milênios. Mas esses são especiais.
Chegamos ao fim dessa locução e quero chamar sua atenção para o fato de que o que resta de nós, mesmo, não é o corpo, nem o corpo ausente (como o de Jesus), mas os atos da pessoa. Passados muitos séculos ou milênios, que é do corpo de Sócrates? Quem se importa? Ou, do outro lado, de Gengis Khan? E, de novo, quem se importa? Importam, sim, os atos. Por isso, nesse dois de novembro quero conclamar você a homenagear a memória dos seus amados ou dos odiados. Festeje. Aos amados, festeje pela beleza que tenham trazido à vida e ao mundo; aos odiados (nunca recomendável, mas real), pela partida deles e decorrente exclusão dos tais em sua própria vida, um espinho a menos na sua garganta. Guarde as pantufas solenes e se revista da alegria pelos amados. Mais: homenageie os que ainda estão por aqui de corpo (e alma) presente. Festeje a vida, a beleza, o amor, as pessoas. É assim que se constrói um mausoléu à hipocrisia. Bom feriado.

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CALENDÁRIO DO VENDAVAL

Os sinais já se faziam sentir um julho, mas a coisa toda explodiu em agosto. Os ventos a varrer Palmas com suas vassouras de poeira, folhas, carvões de queimadas, trazem pelo ar muito mais que ondas sonoras, de rádio, de TV e de toda a parafernália virtual. Aliás, há uma outra onda virtual, inaugurada no dia 04 de agosto aqui no Brasil, e que forçosamente deve ser registrada nesta agostiniana crônica: Pokémon Go!
Pokémon Go entrou em minha vida através do frisson que provocou em alguns tantos conhecidos e muitos outros desconhecidos que resolveram participar do jogo ou que, de cara, subiram nas tamancas, abespinhados (sei, a palavra é velhíssima, mas cheia de encanto) com a onda, que chamam “alienante”. Isso no primeiro momento, porque logo depois aconteceu de um tal Pokémon se alojar no meu ombro esquerdo, sem que eu tivesse a mínima noção do que se passava. Só descobri tarde demais e paguei um mico histórico, Explico:
Frequento regularmente o Parque Cesamar, em Palmas-TO, para as caminhadas ou para exercício literário junto à Academia Palmense de Letras. Pois eu justamente havia adentrado pelo portão do parque e me dirigia à APL quando uma jovem (ai, que recordar dói!) linda, ostentando o design próprio da esportista radical, vem em minha direção, olhos cravados no smartphone. Como escravo absoluto da beleza, continuei a caminhar, embora em passos mais lentos e muuuito miudinhos, alongando o tempo de exposição daquela beleza feminina aos meus muito rodados olhos (6.0 chegando em dezembro).
A distância entre nós, diminuindo; ela com os olhos juvenis (1.8, no máximo) coladíssimos no celular e, de repente, levanta a cabeça e lança-me um daqueles olhares enevoados, perpassados do véu do gozo, permissivos, alucinados! Foi a força daquele olhar que me iludiu, encantou, apaixonou e… derrubou. Ocorre que a linda garota não olhou para mim (me explicou depois), tentava visualizar o Pokémon que estava aí pela altura do meu ombro esquerdo. Pediu desculpas pelo encontrão e o tombo que provocou, sem a mínima ideia de que tinha derrubado coisa muito mais importante que meu corpo físico: tinha posto no chão minha dignidade.
Contudo, há concretudes em agosto. Tem as Olimpíadas Rio 2016 (a abertura foi uma catarse brasílica!), a revelar a incompetência dos brasileiros no planejamento de obras, no preparo da infraestrutura, no trato com a coisa pública, o que é muito menos virtual e bastante mais maléfico que o personagem que me invadiu no Parque Cesamar. Vendaval de agosto em duas dimensões.

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Abriu abril

Crônica da Semana
Esta crônica é patrocinada pela Poetas & tal creperia (Parque Cesamar, varanda da Casa da Cultura – Palmas-TO)

Abriu abril
Osmar Casagrande
Abril começou encantado. Muitos novos amigos, entre os quais, Ana Isabel Friedlander e Geovana Lima (SESC) e a poeta Suzana Vargas (vide Estação das Letras, Rio de Janeiro) e convivas no projeto Letras em Ação. Quanto à literatura, as rodas de bate-papo engajado trataram de Clarice Lispector, figura em destaque na semana, por conta da instalação de Ney Paiva, que a instalou no dia primeiro de abril, para começar o mês com toda a verdade enigmática própria de Clarice. Revisitados lances da vida de Clarice, sua estada em Belém do Pará, sua temporada na Itália, seus poemas. Sim, poemas.
No pé da palavra, Almecides Pereira, nosso confrade na APL, realizou palestra sobre sua patronesse, Aldenora Correa, a qual desenvolveu seus trabalhos no então norte de Goiás, no campo da Educação. O trabalho de Almecides nos trouxe valiosas informações sobre aquela poeta que, como tantos escritores no Brasil, morrem na memória de seu próprio povo. Almecides, elegendo Aldenora Correa como sua patronesse, contribui em muito para o resgate de figura de rara inteligência e vigor de ação.
A palestra de Almecides transcorreu na normalidade, salvo por um momento em que um dos confrades presentes atacou, com a gula característica com que se atacam os crepes da Chef Izilda, um Cordel. Nada de assombroso aconteceu, mas o crac-crac da massa finíssima e crocante ao se quebrar, deu um certo tom de “ai, que vontade!” em muita gente.
Edson Cabral e Casagrande funcionando fulltime, fecharam a programação para abril e maio, sendo que a de abril, que já foi publicada, sofreu alteração, já que os dois malucos (os citados Edson e Casagrande) resolveram, no devaneio entre um crepe e um gole de café, inserir uma acontecência especial, em homenagem à língua espanhola (festejada aos 23 de abril) e farão, sobre a obra de Miguel de Cervantes, Don Quijote de la Mancha, o nosso amado Dom Quixote, um momento especial, embasado no realismo fantástico.
A novidade no menu da Poetas & tal é que o crepe “Poesia de Páscoa”, criado especialmente para aquele período, continuará no cardápio por insistência do público. Não é para menos. Confira a composição da delícia: Massa crocante, creme de avelã com chocolate, wafer de chocolate em cubos, castanha-do-pará e coroando a obra de arte, uma irresistível mousse de limão! Na linha das delícias, Casagrande aproveitou a presença de uma família de nisseis e amigos para compor um tom especial em um novo sabor de crepe. Trata-se do Hai Kai, ainda em gestação. Apreciadores da comida oriental, se liguem.
O clima geral na Poetas & tal se traduz na face dos comensais quando, além das delícias do gosto e do olfato, regiamente tratados pelos crepes, sucos e café (no domingo foi degustado o primeiro chá na Poetas & tal!), é o encantamento com os poemas que o anfitrião destila ali, ao vivo e a cores, com as tintas próprias da emoção. No mais, até a próxima.

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Poetas, poemas & rock’n’roll

Poetas, poemas & rock’n’roll

Osmar Casagrande

O fim de semana foi agitado no mundo da poesia em Palmas. O projeto da APL Letras em ação continua com tudo em cima, sabendo que a toca poética é mais embaixo: lado esquerdo de quem entra pelo portão do Cesamar, na varanda da Casa da Cultura, logo após a Casa Sussuapara.

A semana  foi mesmo agitada, com destaque para o passamento (morte, desencarne) do confrade Mário Ribeiro Martins, que nos deixa uma obra de grande importância para a memória literária de Goiás e Tocantins. Mas outras coisas ocorreram no mundo da literatura. Na creperia Poetas & tal, o sábado foi especialmente eletrizante. Começou com a visita do escritor e advogado Dídimo Heleno que se rendeu, irremediavelmente, ao charme e sabor dos crepes e café da Poetas & tal, prometendo voltar sempre a fim de experimentar cada um dos sabores, mas foi apartado pela chef Izilda Ciribelli que esclareceu ser a atitude de Dídimo uma nova versão de Sísifo, já que paulatinamente novos sabores serão integrados (aproveita para anunciar um novo sabor, especialmente para a Páscoa, e que estará em cartaz a partir da próxima quinta-feira).

A sorte do Dídimo-Sísifo é que a “pedra” que terá de suportar montanha acima é a delícia renovada de um crepe (com massa crocante, crocante). Assinando o ponto o também imortal da APL Júnio Batista, traçando a geografia do paladar. Claro que não faltaram poetas. O da casa, Osmar Casagrande (euzinho, mesmo) trocou figurinhas e emoções com o poeta Ney Paiva, que compareceu acompanhado de toda a família. As crianças do Ney, que eu não via há muito,  deixaram de ser crianças e estão cada vez mais ativas nas leituras de mundo, ativamente participativas.

Muitos outros amigos, fãs incondicionais dos quitutes de Izilda marcaram presença na Poetas e tal e receberam seu grão de poesia, mas com Ney Paiva e família (incluindo Dijé e Ambrósio), a coisa foi longe e fundo: Max Martins, Gilson Cavalcante, Ronaldo Teixeira, Osmar Casagrande, Ney Paiva revisitados em sua poética, os poemas fluindo a quantos ouvidos quiseram (e puderam) ouvir. Noite de gala na Poetas & tal. Você que não foi, perdeu!

Mas nem só de crepes vive a poesia. No mesmo sábado participamos do Sarauzinho Cajuí, promoção da Ecoterra. O tema era “água”, mas rolou muito líquido de outra composição e rock’n’roll. A poesia assinou seu ponto com participação de Osmar Casagrande, Carlos de Baima e Thiago Francysco. No comando geral do Sarauzinho Cajuí, Fernando Beija-flor.

Segue poeminha que fiz especialmente para o sarau. Claro que o poema também faz parte de crônica, afinal é notícia e hoje, 21 de março, comemora-se o Dia Internacional da Poesia.

Água da vida

Água de nuvens pelo espaço

acaba por cair em escarcéu

lavando o ar nos fins de março.

Água que escorre das frinchas das rochas

e por pedras e terras se esgarça,

segue serpentina levando vida e graça.

água que brota da flor dos teus olhos

é água que corre para o rio de dentro,

rio de alegria, ou rio de tormento.

Água servida que vai para o nada

é água sem vida, é flor maculada

água da morte, água parada.

Lava-me água,

lava-me a alma.

leva-me água,

água da vida,

me envolva,

me acalme.

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