Imortalidade e corpos: as intermitências da vida

 

Introdução:

As reflexões sobre o tema “imortalidade” tomaram corpo e forma a partir de um desafio do confrade Dídimo Heleno (Academia Palmense de Letras) a respeito. Com o intuito de estender a reflexão, publico aqui o texto que iniciei pensando em escrever um artigo, mas revelou-se tão rico o tema que o texto naturalmente se tornou um ensaio. Hoje publico a primeira parte, prometendo continuidade para a próxima semana.

 

I – Da matéria do corpo –  Introdução

A pauta que estamos observando é a imortalidade humana. A propositura de vários autores é que a ciência e seus recursos vão, primeiramente, alongar o grande ciclo do homem, permitindo que nosso corpo resista em sua função organizada (daí “organismo”) por mais tempo e em melhores performances durante seu ciclo amplo (nascimento, desenvolvimento, plenitude, decaimento, decrepitude e morte). Tudo bem, tudo dentro da Lei. Contudo, a promessa é que ao final, nosso corpo físico seja “imortal”, isto é, não complete seu ciclo de função (função de onda).

Há muitas considerações a fazer, em tantos campos quantos abranjam a consciência humana e se possível fosse, em muitos outros que nossa consciência ainda não comporta ou suporta.

Consideremos, primeiramente, a imortalidade do corpo enquanto ideia. Tal vertente só pode alicerçar-se na compreensão do corpo na consideração nietzschiana, onde o corpo é a realidade única e, do embate de seus componentes (todos físicos, participantes das três dimensões primárias da matéria) surge o pensamento, sendo a alma mera resultante desse embate. Cessado o embate dos componentes do corpo, cessa tudo. Nessa visão, o que existe é apenas o aspecto da realidade plasmado em três dimensões, o que chamamos nesta reflexão de “corpo 3.0”.

Essa postura de Nietsche, por sua vez, está embasada em Rudolf Virchow, propositor da teoria celular, que prevê que o corpo é formado por uma multiplicidade de seres vivos, daí o “Eu” ser substituído por “Nós”. Tão somente partindo dessa base filosófica (ou dessa leitura do sistema/programa/vida) é que se pode conceber que a sanidade do corpo 3.0 seja suficiente para garantir a sanidade “de todo o resto”, inclusive a “alma”, conforme Nietzsche.

Nossas considerações não pretendem tocar a esfera de discussão em que se apresenta o assunto “alma ou espírito”, portanto, definimos nosso campo de reflexão como o corpo humano. Como está patente há muito, os seres têm o funcionamento de seu organismo comandado por leis, que o gênio humano definiu em leis da Física, da Química etc. Sob essa perspectiva é que pensaremos a propositura: a imortalidade do corpo do homem.

Comecemos pelo mais simples, apesar de extremamente complexo: a linguagem da vida para sua auto expressão (arquitetura da construção) através de corpos, sistemas e funções. Toda a realização, desde um ser a um sistema, se dá obedecendo a arquitetura do ciclo. E todo ciclo é composto de fases. A representação do ciclo é uma linha em onda senoidal (vide ilustração acima), a representar um ciclo em aberto. Importa perceber que cada fase do ciclo encerra em si, um ciclo, sistemática onde o macro e o micro e o micro do micro se integram e compõem a harmonia do todo. Tal integração harmônica vamos encontrar também no corpo 3.0, considerando como macro a consciência humana e micro os “zilhões” (a referência a zilhões é tão somente a expressão de nossa ignorância a respeito de quantos são tais entes) de consciências que nos habitam os corpos e reveladas por Virchow e, posteriormente, por tantos outros, na descoberta de microrganismos os mais diversos. Nosso corpo é, mesmo, um reino povoado, construído e sustentado por imensas populações as mais variadas, algumas belas, outras, verdadeiros monstros (segundo nossa definição de beleza) mas todas imensamente úteis na manutenção da função harmônica de nosso organismo.

Essa linguagem da existência está expressa como modelo universal em todos os campos de nossa compreensão, no universo tridimensional: na biologia, na física, na matemática, na economia, na história, na psicologia, na astronomia etc. A revolução cósmica se dá em ciclos e a revolução do átomo, bem como das partículas subatômicas também se processa em ciclos. Cremos ser lícito afirmar que a Lei dos Ciclos é lei geral e fundamental, integrando as componentes dos universos em um todo integrado e em equilíbrio.

Sendo lei geral e fundamental, o ser humano (e seu corpo 3.0) é apenas uma das infinitas expressões da vida a desenvolver-se em ciclos. Podemos mudar isso? Ao observar a evolução do pensamento, da técnica e dos parâmetros da pesquisa tecnológica, notamos com enorme clareza que houve grande desenvolvimento (também obedecendo à lei dos ciclos). A resultante dessa libertação do pensamento (é bastante comparar as condições de liberdade do pensamento ao tempo de Giordano Bruno e ao nosso tempo) foi, para a longevidade do corpo humano, enorme conquista, onde as descobertas sobre o funcionamento do corpo humano em sua estrutura macro e suas conformações no micro, permitiram ao homem reger a orquestração do fluxo de vida (desdobramento, funcionamento ou desenvolvimento do ciclo). Contudo, no patamar a que chegamos não estamos contrariando a lei geral do ciclo, tão somente estamos a estender sua duração, introduzindo no sistema de funcionamento do corpo físico motores de outros ciclos (bactérias específicas, vitaminas, marcapassos, válvulas etc.).

Apesar dos avanços (alguns, beirando o maravilhoso), sempre temos em mente a realidade do fim do grande ciclo do corpo físico (3.0), o que, para os seres vivos traduzimos como “morte”. E aqui está um ponto em que é muitíssimo recomendável revisitar Lavoisier e o princípio da conservação de energia. Deixo em suspenso a consideração do fechamento do grande ciclo do corpo 3.0, pois o exposto já nos serve de introdução à questão.

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Paixão na Aleluia

(a Pedro Tierra e demais heróis da resistência)

Ontem, 30 de março de 2018, foi Sexta-feira da Paixão, feriado para o povo carpir a morte de Jesus, que foi um libertador de grandíssima envergadura para esta humanidade. Por decorrência, no calendário da Igreja de Roma, hoje, 31 de março de 2018, é o Sábado de Aleluia, em que se prepara a Páscoa ou ressureição de Jesus.
Não participo de tais comemorações, posto que não sou Romano e, por outro lado, estou liberto dos papais-noéis, coelhinhos da páscoa e outras bizarrices que o culto ao deus dinheiro, chamado de capitalismo, instituiu. Prefiro comungar com (e sempre que dá, vivenciar) o Cristo em espírito e verdade. Mas, ainda ontem, enquanto eu trabalhava a teimosia das madeiras, ouvia Belchior cantando e, mais uma vez, ouvi os versos que me cativaram desde a primeira audição: “Mas, se depois de eu cantar, você ainda quiser me atirar, mate-me logo, à tarde, às três, que à noite tenho compromisso e não posso faltar por causa de vocês.” E foram esses versos que deram o toque para o surgimento desta crônica.
Os versos cantados não fazem um gratuito jogo de palavras. É documento de uma época e de um estilo de comunicação. Porque à época, sim, se era morto pelo que cantou, pelo que disse, pelo que escreveu e, até mesmo pelo que pensou. Fico pensando, absorto e cabisbaixo, retirado a um tempo em que também eu era “apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior…” sobre quantos libertadores de nós (de nossa geração e das subsequentes) foram mortos por suas palavras, seus cantares, suas letras, seus pensamentos.
Essa transgressão cronológica de voltar no tempo e buscar os discursos de então, os textos de então, os cantares e as representações teatrais que fazíamos então, também não é gratuito. Ocorre que, neste 2018, o Sábado de Aleluia da Igreja de Roma é coincidente com o aniversário da “Revolução de 64”, movimento que instaurou o regime de terror e morte na sociedade brasileira e instalou, oficialmente, a tortura como método de investigação.
Claro que havia especificidades. Nesse regime de horror, não pregavam ninguém em uma cruz; dependuravam o libertário em um aparato chamado “pau-de-arara” e ali aplicavam, no infeliz que ousara pensar ou cantar ou escrever ou representar ou falar qualquer outra opção filosófica que não a do regime, as mais atrozes agruras, como quebrar ossos a pancadas de barra de ferro, sufocação e, o supra-sumo, aplicação de choques elétricos nas genitálias dos rapazes ou moças que ali estavam. Também havia a sessão de estupros e outras variações de tortura psicológica.
A esses tantos libertários martirizados, mortos no corpo ou na alma, vai minha homenagem de reconhecimento pela liberdade que foi parida de sua dor. E os louvo, neste Sábado de Aleluia e os conclamo à santa vigília que haverá de preparar a liberdade de cada um dos nossos amanhãs.
Obrigado, companheiros. A todos saúdo na figura do poeta e amigo Pedro Tierra.

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Fogos na noite do Rio

O Rio, ah, o Rio! Quanto folgar no barquinho que vai, na noitinha que cai, balançando mesmo “que é bom, do Leme até o Leblon…”. Quantos amores e delícias nesse Rio que “passou em minha vida e meu coração se deixou levar” no estandarte da Portela, da Mangueira, da Beija-Flor e de tantas maravilhas a céu aberto que desfilaram nessa avenida embadeirada que é meu coração, e que se anunciavam com uma saraivada de fogos e o grito de guerra da escola.

O Rio passou em minha vida e passou também na significação, transmutando o maravilhoso em assombroso, obedecendo o novo ritmo do Brasil. A Cidade Maravilhosa transmutou a saraivada de rojões e os gritos de guerra das escolas de samba em saraivada de fuzis, de metralhadoras e gritos de guerra das gangues, das estruturas mafiosas de “proteção”. O que era sonho de valor nas fantasias, virou pesadelo nas realidades das cenas que se pintam de horror nas noites cariocas. O que era paixão virou medo; o que era amor, virou ódio.

Mas, não é apenas o Rio de Janeiro que deteriorou, foi o país e todos os rios que o cortam. Agora, grande parte desses rios só cortam o país, e antes, davam vida. Alguns tantos estão morrendo. Estamos todos nós, matando o Brasil, matando o conceito de gente hospitaleira e simpática, matando a realidade da terra fértil onde em se plantando, tudo dá. E, talvez o mais grave, estamos matando o brasileiro. Matando o brasileiro com o veneno da corrupção, com o sufocamento da lei ditada pelos interesses dos poderosos do governo (de todos os Poderes que formatam o governo do país), com a deseducação, o despreparo, com o aviltamento das funções sociais, com o roubo generalizado pelo sistema que nos condena à condição de neoescravos. Compare-se o custo de qualquer produto no Brasil e esse mesmo produto e marca em qualquer país da União Europeia e se terá uma ideia muito clara de o quando somos explorados quando avaliamos o preço do produto em horas de trabalho. Neoescravos – é o único epíteto possível para nossa condição cidadã.

O Brasil já não é o mesmo, mas alguns aspectos persistem: o cartorialismo, o “espírito de corpo”, a dominação de todos os aspectos sociais por uma elite permeada de ladrões e assassinos, de foras-da-lei que se acostumaram à impunidade; de bestas letradas que livram corruptos e bandidos da justa pena, de governantes que arbitrariamente governam os bens da nação em razão de suas pretensões pessoais ou de seu grupo, partido ou gangue. Outro aspecto que persiste renhidamente: os brasileiros continuam a ser roubados, escravizados, assassinados.

Sofremos ainda com a falta de visão das bestas que servem ao sistema e, ao que parece, ainda não perceberam que matar as pessoas não mata a ideia de um país saudável, com trabalho e oportunidade de crescimento para todos, com cidadãos que possam levar uma vida digna, com amor e paz. E, por conta dessa cegueira é que se cometem os assassinatos cujos balaços atingem o conceito da gente do Brasil a cada vez que tomba um brasileiro anônimo ou não e nessa esteira criamos uma galeria de heróis que são lembrados a cada saraivada: Chico Mendes, Dorothy Stang, Francelmo, Marielle. Os outros brasileiros que tombam assassinados todos os dias, os que são mortos lentamente pela fome, pela falta de oportunidades, pela sangria econômica a que são submetidos, a esses não contamos: são escravos descartáveis. Tão descartáveis quanto os rios podres patrocinados pelo poder público, as estradas de péssimas condições de tráfego, a “saúde”, a (in)segurança, a (i)legalidade em que se dão as relações do poder. O ponto comum a tanta desconstrução é o poder público que nos governa por meio de um sistema programado e regido por corruptos, ladrões e, como se vê cada vez mais nitidamente: por assassinos. Saudades do Rio que embandeirou meu coração.

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2017: obra acabada

Caros amigos, lá se vai mais um ano. Isto significa que se passou mais um período de tempo. Sabemos que o tempo é uma abstração, mas em nossa consciência é real nesse plano de terceira dimensão, onde há desenvolvimento de ciclos. Também é real na quarta dimensão, onde as emoções ficam gravadas, ancoradas em um acontecimento em dado período de tempo.

Longe de tergiversar sobre a conceituação de “tempo”, observo essa questão ao modo poético e, como poeta (primo-irmão de profeta), hoje reduzo o tempo à nossa realidade mais palpável, que é a terceira dimensão e, para tanto, considero o ano que se finda hoje, 31 de dezembro de 2017.

Para que você, leitor, possa sonhar o meu sonho, é preciso sonhar. Então sonhe: pense o ano de 2017 (ou qualquer outro) como um enorme bloco de 365 metros. É um bloco especial que você deve esculpir na construção de sua vivência (aprendizado, trabalho, diversão, interação social, relações políticas, relações espirituais, etc.).

Cada dia significa um metro de trabalho a cinzelar o bloco de tempo. Mas há outra consideração: como cada ser é um universo completo, a natureza do tal bloco de tempo é particular e intransferível, única, bem como únicas e intransferíveis as ferramentas de que se dispõe para o hercúleo trabalho.

Para alguns, o bloco de tempo é feito do material das nuvens. Para esses (poucos, é verdade) sonhadores, esculpir o tempo é uma diversão e um prazer imenso, pois se utilizam do cinzel do pensamento e vão surfando o material dos dias, às vezes se demoram em arabescos, alguns se metem a fazer rococós e, mais que esculpindo, vão, com a leveza que lhes é própria, tecendo o dia no seu metro de tempo (salve, Gilson Cavalcante). Com isso, vão encantando a todos, iluminando o dia e a alma dos que lhes são acessíveis, imprimindo algo de céu em suas nuvens de tempo.

No outro extremo temos aqueles (infelizmente, a maioria) para os quais o bloco de tempo se mostra aço temperado e ele olha o tal bloco já com olhar desolado, arredio, medroso da tarefa que se lhe impõe. Olha com quase desespero o cinzel de diamante que tem em mãos: suficiente para cortar o aço, mas de cantos vivos que lhe esfolam as mãos, e, ainda a considerar, a imensa força necessária para efetivar o corte. Para esses, encarar cada metro de tempo é um desafio digno de Sísifo a rolar sua pedra morro acima.

Dada a natureza personalíssima de nossa visão do bloco a esculpir, só você, leitor, pode visualizar (ainda que sonhando comigo) a natureza do seu bloco de tempo: ar, madeira macia, madeira de lei tipo Pau Ferro ou Cega-Machado, argila maleável ou granito, bloco de espuma ou de ferro. Também só você pode perceber as ferramentas de que dispõe: cinzel de sonhos, cinzel de diamante, cinzel de plástico e por aí vai. Mas isto de observar a natureza do bloco e das ferramentas que possui é exercício a se fazer diante do Ano Novo que está para se apresentar. Para ver que materiais você teve e utilizou, basta olhar para a obra acabada de 2017 e, depois, sim, com toda a consciência, apor sua assinatura na maravilha ou horror que conseguiu esculpir. Espero, sinceramente, que seja uma escultura linda mas, ainda que tenha sido um horror, construa uma magnífica obra de arte com 2018. Se precisar de uma mãozinha, conte com meus sonhos.

 

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Imortalidade e corpos: as intermitências da vida

II – A função integrada dos corpos do homem

Quando é considerado o corpo do homem, nas questões da longevidade e imortalidade, os autores estão a considerar, em verdade, tão somente o chamado corpo físico, isto é, o organismo em sua versão 3.0, ou seja, na dimensão três (largura, comprimento e altura), que traduzimos de modo comezinho como “matéria” (vide René Descartes e as considerações sobre corpo e alma).  Contudo, a ciência, no prodigioso desenvolvimento de seu ciclo (atualmente, fase de liberdade em ascensão) nos ensina que há outras dimensões da matéria. E é simples constatar que assim seja, quando percebemos que há uma máquina que mede os ciclos da função do cérebro, que traduzimos por “pensar”. O que é mensurável pela máquina que faz o eletroencefalograma nada mais é que o efeito na aplicação de uma energia (vide Einstein: “matéria é energia condensada”), que não se manifesta na dimensão três, mas em uma outra dimensão. Ainda de nossa vivência, podemos observar que há forças (resultantes da aplicação de energia em potencialidades específicas) que comandam ou orientam nosso corpo físico (e os seres que o compõem), forças essas oriundas de nossos sentimentos/pensamentos. Seja a raiva ou o amor, o ódio ou a esperança, tais motores são expressão do sentimento, os quais imperam, orientam e determinam o funcionamento de nossos corpos 3.0 e são em grande parte responsáveis pela saúde do corpo físico, isto é, ditam as prioridades na duração e na qualidade dos ciclos de cada componente de nosso corpo “físico”, desde as partículas subatômicas que o compõem até o ciclo do organismo (o todo). No campo da degeneração do funcionamento (doenças), a ciência traduz essa função como “doença psicossomática”. Essa interferência dos sentimentos (e, portanto, dos pensamentos) na dinâmica dos ciclos dos átomos e células físicas pode afetar tão profundamente o tecido em terceira dimensão que reestrutura esse tecido, impondo arquiteturas diversas para as células e os tecidos que elas compõem. Os cânceres são exatamente isso: estruturas esdrúxulas das células, que impõem nova orientação de desenvolvimento ao tecido (cabe aqui revisitar Sócrates, Platão, Aristóteles e Descartes na consideração da relação corpo/mente).

A inserção dessas variantes de comando na manutenção ou na reorientação na arquitetura do corpo 3.0, creio que nos obriga, se formos honestos, à aceitação de que ou temos um corpo físico em várias dimensões ou temos vários corpos, independentes, cada um integrado às leis de sua própria dimensão, mas integrados em função harmônica. Decorre daí a realidade última de que há pessoas que ficam doente de inveja, louco de raiva, morto de ciúme. E ainda que o ciúme não mate o organismo, mata, resseca, mutila, apodrece muitas regiões do seu corpo emocional (4.0), causando trauma que vai se refletir no corpo 3.0 em modo de “doença”: dores de cabeça atrozes, dores no fígado ou no estômago etc. Para além disso, o susto ou o riso podem, efetivamente, colapsar (matar) todo o organismo 3.0.

Nessa altura de nossas considerações, a questão do fim do grande ciclo (a morte) se torna bem mais complexa. E promete muito mais, porque temos, já inserto em nossas consciências que o ser humano tem, como veículo de expressão de si, um corpo 3.0 (físico), um corpo 4.0 (sentimentos) e um corpo 5.0 (pensamentos). Os corpos 4.0 e 5.0 também são arquiteturas materiais, ainda que em suas dimensões específicas. Mas há muitas outras dimensões da matéria que sequer cogitamos, salvo alguns manuais de conhecimento que insistimos em chamar de “espiritual”. Como ressalva, se é válido o termo “espiritual” para os corpos 4.0, 5.0 e acima, também é válida a expressão para o corpo 3.0, pois a regente de todos eles é a mesmo, a regê-los em harmonia.

É passível de consideração que o espírito ou mente seja o motor de todos esses corpos, mas não vamos entrar nessa esfera, porquê não diz respeito à temática, que é o corpo ou corpos do homem. Temos notícias, através desses manuais espirituais (coisas das quais nossa ciência ainda não se imbuiu) de que há outras quatro macro dimensões da matéria, cada uma mais refinada que a outra, a funcionar em harmonia. É dessa realidade que devemos nos aparelhar para considerar o que está posto: a imortalidade do corpo 3.0, sabendo que seu grande ciclo físico (nascimento, desenvolvimento, plenitude, decaimento, decrepitude, morte) é apenas uma fase dentre muitas outras, do grande ciclo do(s) corpo(s) do homem integral.

Considerando-se que as outras dimensões da matéria (tais como as dos sentimentos e do pensamento) são dimensões do corpo do homem, há que se considerar que a finalização do ciclo do corpo 3.0 não significa o fim de ciclo da matéria 4.0 e de todas as outras dimensões acima. Aliás, todos aqueles manuais de conhecimento dizem que não; insistem que cada dimensão tem sua própria matéria e suas leis específicas, e que subsistem, como meio de expressão do ser, após o colapso ou fim de ciclo do corpo 3.0. Há até umas tantas pessoas que afirmam se comunicar com esses veículos de expressão 4.0, imbuídos da certeza de que estão a falar com um “espírito”,  e é verdade, mas o que se vê não é o “espírito”, se trata tão somente de matéria 4.0, a qual o motor que gerencia todas as dimensões da matéria (aí, sim, o espírito) utiliza para se expressar. Do mesmo modo, quando estamos em contato com alguém (exemplarmente o seu esposo ou esposa, um amigo ou simples desconhecido na rua), estamos a conversar ou relacionar com um espírito, que naquele momento se manifesta através de um corpo 3.0.

Isso posto, quando pretendemos instituir a “imortalidade” ao corpo 3.0, estamos, na verdade, querendo estender um ciclo ao infinito. E temos de considerar que, se tornamos infinito esse ciclo, estaremos impedindo o desenvolvimento do ser na vivência do próximo ciclo, a consciência desperta no corpo 4.0, e a suspender outra Lei geral, que é a do desenvolvimento contínuo (vide Heráclito: “tudo corre”), onde nada é estático, conseguindo-se a inércia (ou movimento estático) no desenvolvimento do organismo (macro) à custa de injetar transformações e transmutações nos órgãos e seres que o compõem (micro).

A ideia da morte como fim de tudo (como propõe Nietzsche) incorre nessa incongruência porque o partidário dessa ideia não concatenou com a realidade das outras dimensões da matéria. Mas em se considerando realidade essa informação ainda tão nova nos meios científicos (e, em verdade, muito pouco reconhecida) teremos que, ao interromper a finalização do ciclo do corpo em 3.0, estamos interrompendo o desenvolvimento do ser na nova fase, o ciclo da consciência desperta na dimensão 4.0, harmonizada com todas as outras acima. Isto é, ao não deixar morrer, impedimos o ser de viver seu desenvolvimento. Não nos parece sábia essa atitude. Sábio será se a ciência puder proporcionar todo o conforto ao homem integral, considerando todos os seus corpos (vale dizer, todas as dimensões de sua humanidade, que ainda nem conhecemos e a maioria faz questão de não conceber qualquer outra dimensão além da 3.0).

Façamos uma abstração e reconheçamos que existem e subsistem as dimensões 4.0, 5.0 etc. Aqueles que conversam com os seres que se manifestam em corpos da dimensão 4.0 dão-nos notícias de que alguns deles continuam a querer morrer, mas se sentem (dolorosamente) vivos! Depreende-se que a “vontade” não estava fixada pelo e nem no corpo 3.0, isto é, independe do cérebro 3.0.

Certamente que podemos desconsiderar todos esses princípios de multiplicidade das dimensões e continuar a negar qualquer integração com outras faces da realidade, mas ao fazer isso, temos que abafar e negar a obviedade de que o pensar gera matéria (matéria com as características de sua dimensão específica) que, para nossa compreensão 3.0, é energia. E isso está amplamente comprovado, pois que essa energia interfere na manifestação da matéria 3.0 (vide as funções de onda sob a luz da física quântica e os experimentos que resultaram na equação de Schrödinger). Se a força impulsionada pela energia do pensamento influencia a matéria 3.0  exterior ao ser, o que dizer das matérias que integram o próprio organismo em suas múltiplas dimensões? Não seria essa força a regente de todas as consciências que habitam nosso corpo 3.0? Fica anotada a possibilidade.

Pois bem, por amor à filosofia, não descartemos obtusamente o que para alguns é tão patente e mais que possível: é provável, isto é, as dimensões da matéria são realidade patente que oxalá não demore tanto a ser aceita e analisada quanto demorou a realidade noticiada por Giordano Bruno. Consideremos a realidade das dimensões.

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Meninos do interior

Caros amigos, aí vai uma crônica que nos remete ao meu tempo de menino. A dedico ao caro amigo Athos Mendes Pinto, um outro menino de coração grande.

19.12.2017

Era uma cidade singela na margem esquerda de um rio. Apesar da exiguidade, era a minha cidade e além do mais, tinha o nome de um presidente da República: Presidente Epitácio. Suas ruas largas, tantas delas “areião”, com tufos de grama a crescer nas margens, passeios sem calçadas. Mas a minha rua era especial porque por ela se tinha acesso à estrada “boiadera” e por isso, minha rua (Rua Mato Grosso) era um apêndice que servia de passarela para as boiadas tangidas desde o Paraguai.
As casas simples, em madeira, eram a marca registrada: a pequena cidade tinha então cinco mil habitantes e 22 serrarias! Os dentes daquelas serras comeram as árvores da região e de muita mata do Mato Grosso. Sim, Mato Grosso, que o “do Sul” ainda não havia chegado. O rio Paraná era a estrada que ligava mercados e mercadorias.
O meu sonho de menino na Epitácio de então era ganhar o mundo. A aventura maior era ir até a estação “Sorocabana”, porque ali, eu sonhava, era o meu ponto de partida para ganhar o mundo. Mal sabia, criança ainda não maculada pelos conceitos, que para o resto do mundo aquela minha cidade era o “fim da linha”. Para mim, era apenas o começo.
A azáfama das pessoas na estação, o trem que chegava em grande estilo, esbaforido, a soltar apitos e guinchos se travestia, em meu imaginário, do monstro poderoso em cuja barriga eu embarcaria para visitar os confins do mundo… A estação era um mundo à parte no acanhamento geral da cidade: tinha um bar com petiscos deliciosos para o meu gosto simples, ali se podia também comprar revistinhas e esses eram os presentes que eu ganhei nas poucas aventuras dos passeios de trem: uma gulodice e uma revistinha.
Ah, o trem… Para o garoto acostumado a “pegar rabeira” em carroças e charretes (sim, na minha Epitácio havia muitas charretes), a sensação de força que sentia no trem que iniciava seu movimento era indescritível, pois em minha função mimética eu era o trem, e era forte, e era o conquistador das terras. Então, o trem saia e aos poucos, lá vinha a velocidade, tão rapidamente ia que loguinho ficava para trás minha cidade. Eu ia em sonho alucinado, vendo, em velocidades alteradas, o filme das paisagens e a mente infantil tentando decifrar porque o capim aqui tão perto corria tanto e o morro lá longe ficava estático, e as vacas a pastar passavam tão devagar… Mal desconfiava o menino que essa busca infantil era o principio da filosofia que se mostrava, tímido, à personalidade de espírito irrequieto.
Mas um dia, ganhei mundo, deixei a Epitácio da infância, da pré-adolescência. E o fiz pela Raposo Tavares, estrada de asfalto, em momento de atropelo, de corre-corre em família. Encerrada no cofre da memória ficou minha Epitácio, meus amores, os amigos, os professores que, só depois os descobri tão queridos por mim. Enfim, ficou na memória um tanto de mim gravado no ar daquela cidade, nos aromas, nas macaúbas, no figueiral que depois o lago engoliu, mas permanece em nossa memória. Ficou muita gente que o tempo também engoliu: Dona Tidinha, Ana Cabrita (maravilhosa!), Seu Artur, Dona Maria Barbeiro, Seu Maneco, Samuel de Paula, Dona Ofélia, Dona Rosa dos Correios, Seu Horita, Duduca, Mário Paulista, Dona Mocinha, Seu Godói, Doutor Canhete, Hermes e tantos outros, dos quais não posso deixar de nomear o Zé Bolinha, figuraça intelectual de minha Epitácio: “Bom dia, compadre Zé Rubim! No meu Lanco especial, pontualmente em Presidente Epitácio, dez horas, vinte e dois minutos e trinta e cinco segundos.”.
O tempo engastalhou o Lanco especial do Zé Bolinha e corroeu também os negócios de então. Chegou a Ponte Maurício Joppert, e passou por cima das embarcações do rio, atravessou as linhas da Estrada de Ferro Sorocabana (depois FEPASA) e o chão preto sepultou os trilhos nos tufos de grama. Meu monstro de aço deu o último suspiro e os trilhos quedaram inertes e inúteis, feito espinha dorsal de monstro abatido.
Muitos anos depois, eu já menino de cinquenta anos, voltei a Epitácio em visita às reminiscências e, em manhãzinha de sol amigo, “desci” até o cais, passei pela “Peixaria do Seu Godói”, pisei as pedras do cais e, naquele instante, as pedras eram meu coração. Estendi o olhar saudoso para o “restaurante do Zé Damaceno” e triste, subi a ladeira até a Avenida São Paulo e dobrei na rua da estação. Ali a dor criou garras e foi lanhando o peito: as casas tristes, caixotes acanhados de madeira, teimosas, resistem. Olho para a estação e o que vejo me vai retalhando por dentro: o prédio abandonado, maltratado pelas intempéries. Passeio pelo pátio, num passeio de pesadelo; entro nas salas e vejo, em todas as paredes, retratos os mais variados do abandono. De repente, em uma delas, vejo quatro homens que ali se haviam abrigado. Troco dois tostões de conversa, falo do passado, eles não sabem. Dou uma nota para que façam o desjejum e me despeço quase em paz com a nova realidade: minha estação Sorocabana ainda não estava abandonada aos cães, era refúgio de humanos.
Hoje, pela manhã, essa estrada, que não é de ferro, mas de dados, me traz a imagem da minha “Estação Sorocabana” recém pintada, iluminada nos tons do Natal. Impossível me conter e, ato reflexo, me ponho a digitar esta singela crônica: crônica do menino do interior que sempre serei. A obra de recuperação é o sonho de um outro menino do interior, chamado Athos, que certamente tem também o peito cheio de amores. Obrigado, amigo. Hoje, Epitácio já não é o fim da linha, mas será sempre nosso ponto de partida para a conquista do universo.

 

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O papel das entidades frente aos desafios linguísticos atuais*

Língua é, em síntese, a expressão do perfil cultural de um dado grupamento humano. Ocorre que dados os aspectos tecnológicos, políticos, econômicos e ideológicos de nossa realidade de modernidade líquida, na qual a identidade cultural já está passando da condição de líquida para a condição de vapor, a língua, como síntese dessa identidade cultural segue a mesma sistemática de vaporização. O que estou a dizer pode parecer um dialeto aloprado, resultado da combinação de um punhado de elementos do caos. Mas, absolutamente, não o é.

Enquanto modernidade líquida, o ritmo da mudança conceitual (e os conceitos e definições são os elementos primevos dos átomos constituintes de nosso todo ou nosso corpo cultural) obedecia a um fluxo hegemônico de informações, num ritmo e numa qualidade conteudística ditados pela matriz ou por ela ressignificado, a perfazer um “rio” cultural e, portanto, de afirmação linguística. A percepção de tal fluxo como “líquido” deve-se à sua condição de “escorrer”, de inconsistência, de impermanência em um dado ritmo. Nossa realidade neste momento já é completamente outra.

A disseminação dos canais e possibilidades de comunicação sem que a mesma passe pelo crivo da matriz, manifestam-se como gêiseres, que explodem com relativa força e disseminam como vapor, competindo com o fluxo controlado da modernidade líquida. Quanto mais fácil e mais amplo o acesso à tecnologia da informação integrada à comunicação, tanto mais se multiplicam esses gêiseres por todo o mundo.

Nesse contexto, temos uma realidade em que chiclete eu misturo com banana e assovio um tango argentino enquanto danço um blues, com uma parceira de mangá, e pós festa, caçamos juntos os Pokémons ou deslindamos as múltiplas personalidades das matrioskas, que encarnamos, enquanto planejamos, nossa existência de walking deads depois de navegar no ventre da baleia azul. E todas essas pressões psicossociais nós as sofremos presos numa bolha, cuja pressão aumenta sempre que explode um gêiser cultural, seja do Estado Islâmico, seja dos skinheads, de um Aiatolá, do Papa, do Trump ou da sociedade de caçadores de ETs.

Recebemos milhões de dados a cada dia. Esses dados é que formatam nosso perfil e nosso conteúdo cultural. Por decorrência formatam, deformatam e reformatam nossa língua que, em síntese, é a expressão de nosso perfil cultural. E, se nosso perfil cultural é mundial, nossa língua deve acompanhar esse perfil: ser mundial. Mas nunca oriunda de uma matriz, como ocorreu em nosso processo civilizatório, com domínio do grego, do latim, do espanhol, do francês e, por fim, do inglês. O modo de vencer tal desafio passa, obrigatoriamente, pela evolução de linguagens lógicas capazes de expressar todo o conteúdo cultural de todos os produtores de cultura. Já tivemos experiências desse tipo, onde a que mais se destaca é a língua Universal Esperanto, também conhecida como a língua da fraternidade, a qual não se expandiu justamente pelo perfil cultural dominante no universo capitalista, antítese da fraternidade apregoada pelo Esperanto. Esse, o desafio: vencer nossas limitações culturais; sermos universais.

 

  • *Participação em mesa redonda com o tema-título.
  • Instituto Federal do Tocantins, Campus Paraíso.
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